Observação.

Um ano se passa, mas existem coisas que são impossíveis de deixar de lado, de esquecer, de não recordar. É um ano, mas parece que é um dia. Consigo sentir as mesmas sensações, as mesmas emoções, os mesmos flashbacks e até não esqueci o gosto do choro. Trezentos e sessenta e cinco dias não foram tanto. Meu quarto está mudado, algumas coisas foram jogadas foras. A sala trocou de posição duas vezes e até mesmo de lado. No lugar do claro sol, colocaram uma cortina e o “armário da Princesa Isabel” foi vendido. Aquele sofá tão feio foi trocado por um novo e a Shenna engordou mais um pouco. As coisas mudaram por aqui. Tudo mudou mesmo. As lembranças quase desapareceram, não é?! Eu temia tanto que isso acontecesse, por isso acreditava que seria difícil lidar com um sofá novo ou com a perda do azul em meu quarto. Mas isso nunca aconteceu. Ainda consigo sentir.

Há um ano me disseram “Quarto novo, vida nova. Agora, você precisa esquecer tudo que aconteceu até aqui e recomeçar”. Eu recomecei, ainda que não tenha esquecido nada, eu recomecei.

IMG_3551

Anúncios

A reflexão dos hospitais.

Toda vez que eu vou em hospital, entro com uma mente e saio com outra. É incrível ver como o ser humano é nada. Em um mundo extremamente egoísta e “camadista”, o hospital é o único lugar em que todos estão no mesmo patamar. Todos vulneráveis, fragilizados. De repente, um está pedindo a ajuda do outro. Essa é a parte boa: pessoas que ajudam, que estão dispostas a doar-se porque esse é o trabalho delas ou algo que escolheram para viver. Difícil é ver alguém que não precise da ajuda do outro. Hospital é lugar de dizer coisas otimistas, acreditar que irá ficar bem. O mundo precisa da reflexão dos hospitais.

Tabacaria.

30-12-10 011

“Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos” (Tabacaria – Álvaro de Campos).

__________________________________________________________

Álvaro de Campos é o personagem (se assim me permitem dizer) que mais gosto em Fernando Pessoa. Todas essas reflexões sobre a existência me fazem delirar e viajar. Sempre encontro algo parecido comigo. Tentando entender o tempo todo.