Somewhere over the rainbow…

Tenho me questionado ultimamente sobre o porquê de não vir mais aqui. Será que a vida anda tão monótona assim? Eu quase prefiro acreditar nessa opção, justamente porque ela não me faz lembrar do próximo motivo: o tempo. Será que tem bastante coisa acontecendo e eu ainda não tive tempo para organizar tudo em palavras?

Se a vida realmente anda tão monótona e sem graça, então hoje tudo saiu do lugar. É por isso que estou aqui outra vez.
Fiquei encantada com o meu dia. Pequenos atos podem te encantar pelo resto da vida, mudar até seu ponto de vista sobre tudo. O copo que estava meio vazio de repente é visto quase transbordando. O dia nublado e cinza se tranforma numa gama de infinitas cores. Eu poderia dizer que hoje eu fui pra Oz em technique color – e ainda estou lá.

De manhã, eu estava cansada de ficar em pé dentro do ônibus lotado e parada no engarrafamento das sete. No almoço, a fila do R.U. estava dando voltas. Mais alguns minutos… Como sempre, os acontecimentos ruins são colocados aqui em evidência e quase me esqueci que tive uma aula ótima durante a manhã. Isso é mais uma curiosidade da humanidade. Digno de psicanálise. Quase pensei que seria mais um bad day…

Na hora de retornar ao mundo distante, o ônibus chegou vazio. Uma esperança. Demorei um tempo da porta até a roleta. Me irritei. Motivo: pessoas – ainda não entendi porque todos se acumulam na frente se atrás está vago. Não pude deixar de saudar o cobrador com o famoso e banal “bom dia”. Se tem algo que aprendi na minha época de ensino médio é que não importa o quão ruim estão as coisas, sempre sorria para o cobrador, ainda que tudo esteja desacreditado. Em meio à essa reflexão, ouvi apitar um som de reprovação. Foi quando vi no visor da máquina: “saldo insuficiente”. Eu não tinha nenhum dinheiro para a passagem. Não tinha a menor idéia de como voltaria para casa. Fiquei estática e com cara de não-sei-o-que-fazer. Sem que eu percebesse de início, um garoto desconhecido estendeu o braço em direção à máquina e disse “deixa que eu passo para você”. E foi questão de segundos para tudo mudar. Perdi as contas de quantos obrigadas eu disse para ele. Em todos os agradecimentos ele sorria e dizia “tudo bem, isso acontece, já aconteceu comigo também”.

Saltei do ônibus com a mensagem de que coisas assim acontecem e que já está na hora de notar esses pequenos acontecimentos que edificam nossos dias. Como diz Chico: “é sempre bom lembrar que o copo vazio está cheio de ar”. Hoje foi o garoto desconhecido do ônibus, mas amanhã pode ser aquela folha que caiu da árvore por onde eu passo todos os dias… Vai saber.

É por isso que esse texto nem tem data. Quero passar a ver todos os dias essas pequenas coisas e essas palavras irão me fazer lembrar disso. Será quase leitura obrigatória das manhãs. Não quero recordar a data, mas quero ter a possibilidade de pensar que essas ações acontecem sempre… A gente só precisa ver.

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Primeiro dia.

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“Aquela era a primeira aula depois das férias de julho. Jasmine havia passado o último mês trancada em seu quarto, imaginando e talvez criando maneiras de adiar sua volta para o colégio. Talvez ela quisesse apenas mostrar para os pais o quão difícil era enfrentar tudo aquilo sozinha. Temo que eles não tenham nem reparado a tentativa. Foi um ano difícil para todos e os adultos, você sabe, os adultos estão sempre ocupados com o trabalho, o trânsito, a poluição, o governo, a conta de gás. Jasmine só precisava ser uma adolescente normal, ter um ídolo passageiro como todas as suas amigas e passar de ano. O que poderia deixá-la aflita se não a opção de sobremesa após o almoço? Bem, pelo que soube, ela não comia há dias.

Quando o sinal tocou todos já estavam dentro da sala de aula. Algumas carteiras permaneciam vagas, pois uma parte dos alunos, como já era de costume naquela época do ano, ainda não havia voltado de viagem. Só retornariam ao colégio na próxima segunda. Enquanto abria sua mochila, Jasmine resmungou mentalmente. O mundo não era justo. Afinal de contas, de todos ali naquela sala, ela era a única que tinha motivos reais para fazer aquilo.

A professora entrou na classe e pediu silêncio. A maioria dos alunos estava em pé, próximos a carteira de seus colegas, formando assim pequenos grupos que poderiam ser divididos em: nerds, garotas bonitas, garotos bonitos, os estranhos e os casais. Nossa garota apenas observava. Nunca conseguiu fazer parte de nenhum deles por mais de uma semana. Todos falavam ao mesmo tempo, mas Jasmine só conseguia prestar atenção em uma das conversas.

Depois de dar boas-vindas e fazer a tradicional contagem de alunos, dona Madalena declarou que graças a quantidade significativa de faltas, não poderia passar matéria de prova. Talvez nessa hora Jasmine tenha sussurrado um palavrão. Por sorte ninguém ouviu. Enquanto distribuía papéis em branco, a professa explicou que todos fariam um trabalho e que ele contaria como ponta extra caso os alunos precisassem de ponto no final do semestre. Era algo simples, mas eles precisariam se comportar bem e desfrutar do seu raro bom humor, caso contrário, mudaria de ideia e começaria a ditar algum conteúdo antigo.

Todo ficaram em silêncio até o momento em que dona Madalena anunciou que o trabalho seria em trio. Em menos de cinquenta e cinco segundos, carteiras arranhavam o chão e todos pareciam já ter encontrado seu grupo. Enquanto isso, Jasmine ainda nem tinha assimilado direito as últimas palavras ditas em voz alta pela professora. Era só um trabalho, mas como praticamente tudo da época de colégio, uma demonstração easy mood de como seria a vida depois que ela não tivesse mais que acordar todos os dias pra estudar matemática: continuar se adaptando aos outros e se encaixando nos pequenos lugares onde ela não tem certeza se cabe.” (Bruna Vieira)

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Pensa numa garota que vivia no interior, longe dos prédios altos que ela sempre imaginava, mudando sua vida completamente com a criação de um blog (depois dos quinze). Essa é a Bruna Vieira. A mudança dela pra São Paulo e a ânsia de conhecer o mundo me fazem ter vontade de lutar por tudo que eu quero também. Os textos dela são incríveis e vale a pena conhecer.