Primeiro dia.

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“Aquela era a primeira aula depois das férias de julho. Jasmine havia passado o último mês trancada em seu quarto, imaginando e talvez criando maneiras de adiar sua volta para o colégio. Talvez ela quisesse apenas mostrar para os pais o quão difícil era enfrentar tudo aquilo sozinha. Temo que eles não tenham nem reparado a tentativa. Foi um ano difícil para todos e os adultos, você sabe, os adultos estão sempre ocupados com o trabalho, o trânsito, a poluição, o governo, a conta de gás. Jasmine só precisava ser uma adolescente normal, ter um ídolo passageiro como todas as suas amigas e passar de ano. O que poderia deixá-la aflita se não a opção de sobremesa após o almoço? Bem, pelo que soube, ela não comia há dias.

Quando o sinal tocou todos já estavam dentro da sala de aula. Algumas carteiras permaneciam vagas, pois uma parte dos alunos, como já era de costume naquela época do ano, ainda não havia voltado de viagem. Só retornariam ao colégio na próxima segunda. Enquanto abria sua mochila, Jasmine resmungou mentalmente. O mundo não era justo. Afinal de contas, de todos ali naquela sala, ela era a única que tinha motivos reais para fazer aquilo.

A professora entrou na classe e pediu silêncio. A maioria dos alunos estava em pé, próximos a carteira de seus colegas, formando assim pequenos grupos que poderiam ser divididos em: nerds, garotas bonitas, garotos bonitos, os estranhos e os casais. Nossa garota apenas observava. Nunca conseguiu fazer parte de nenhum deles por mais de uma semana. Todos falavam ao mesmo tempo, mas Jasmine só conseguia prestar atenção em uma das conversas.

Depois de dar boas-vindas e fazer a tradicional contagem de alunos, dona Madalena declarou que graças a quantidade significativa de faltas, não poderia passar matéria de prova. Talvez nessa hora Jasmine tenha sussurrado um palavrão. Por sorte ninguém ouviu. Enquanto distribuía papéis em branco, a professa explicou que todos fariam um trabalho e que ele contaria como ponta extra caso os alunos precisassem de ponto no final do semestre. Era algo simples, mas eles precisariam se comportar bem e desfrutar do seu raro bom humor, caso contrário, mudaria de ideia e começaria a ditar algum conteúdo antigo.

Todo ficaram em silêncio até o momento em que dona Madalena anunciou que o trabalho seria em trio. Em menos de cinquenta e cinco segundos, carteiras arranhavam o chão e todos pareciam já ter encontrado seu grupo. Enquanto isso, Jasmine ainda nem tinha assimilado direito as últimas palavras ditas em voz alta pela professora. Era só um trabalho, mas como praticamente tudo da época de colégio, uma demonstração easy mood de como seria a vida depois que ela não tivesse mais que acordar todos os dias pra estudar matemática: continuar se adaptando aos outros e se encaixando nos pequenos lugares onde ela não tem certeza se cabe.” (Bruna Vieira)

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Pensa numa garota que vivia no interior, longe dos prédios altos que ela sempre imaginava, mudando sua vida completamente com a criação de um blog (depois dos quinze). Essa é a Bruna Vieira. A mudança dela pra São Paulo e a ânsia de conhecer o mundo me fazem ter vontade de lutar por tudo que eu quero também. Os textos dela são incríveis e vale a pena conhecer.

A reflexão dos hospitais.

Toda vez que eu vou em hospital, entro com uma mente e saio com outra. É incrível ver como o ser humano é nada. Em um mundo extremamente egoísta e “camadista”, o hospital é o único lugar em que todos estão no mesmo patamar. Todos vulneráveis, fragilizados. De repente, um está pedindo a ajuda do outro. Essa é a parte boa: pessoas que ajudam, que estão dispostas a doar-se porque esse é o trabalho delas ou algo que escolheram para viver. Difícil é ver alguém que não precise da ajuda do outro. Hospital é lugar de dizer coisas otimistas, acreditar que irá ficar bem. O mundo precisa da reflexão dos hospitais.

Tabacaria.

30-12-10 011

“Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos” (Tabacaria – Álvaro de Campos).

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Álvaro de Campos é o personagem (se assim me permitem dizer) que mais gosto em Fernando Pessoa. Todas essas reflexões sobre a existência me fazem delirar e viajar. Sempre encontro algo parecido comigo. Tentando entender o tempo todo.